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Nessie

Este blog é sobre tudo e nada (a parte não filosófica da questão).

Nessie

Este blog é sobre tudo e nada (a parte não filosófica da questão).

A morte como substantivo.

 

Eram 4 da madrugada. Já devia estar a dormir há 4 horas. Pelas contas de Joana não iria dormir mais de 3 horas. Era raro acontecer episódios como aquele. Mas acontecia, esporadicamente, sentir o coração de tal maneira acelerado que nem conseguia respirar como deve ser. Era das leituras, dizia o pai. Joana adorava ler. Era como se viajasse para mundos diferentes a cada livro que abria. O que acabara de ler falava sobre morte. Joana era incapaz de ficar indiferente a este tema.  O que acabara de ler explicava a morte como uma passagem para outro nível. Só morria quem superasse tudo neste nível. 

 

Joana tinha 30 anos, e uma estante inteira reservada a esta temática. Tinha livros religiosos que abordavam a morte como uma fase de transição e de passagem para outro mundo, um mundo melhor e de paz. Tinha livros que explicavam a morte como o fim do Homem, que acaba assim. Tinha livros que abordavam a morte sobre todas as visões e culturas. Estava a fazer uma espécie de resumo, no seu caderninho Moleskine preto, onde ia apontando notas e notinhas e que era guardado como um tesouro. Estudava filosofia, e como tal o mistério da morte sempre lhe tinha dito muito. Os pais diziam-lhe que era macabro, mas ela encarava o seu interesse como normal. A morte era uma parte da vida, como outra qualquer. E Joana até já sabia qual ia ser o tema da sua tese de mestrado, que tinha de fazer para terminar o curso. Fascinava-a, e ninguém entendia isso. Na sua família toda a gente fazia dessa temática um tabu, algo de que ninguém podia falar e olhavam para ela como a ovelha negra por se interessar por este assunto. 

 

Fascinava-a sobretudo a maneira como os japoneses encaravam a morte. A principio tinha achado chocante, devido à cultura portuguesa, em que estava enraizado o vestir de preto, havendo ainda em aldeias mais remotas a obrigação de as mulheres taparem o cabelo aquando da morte do marido. Mas à medida que tinha aprofundado o estudo tinha ficado fascinada! O funeral japonês é descrito como uma mistura de tradições xintoístas (religião do Japão) e budistas (religião importada da China há mais de 1000 anos). Quando alguém morre é chamado um monge budista para os serviços fúnebres. Nos funerais recitam sutras (escrituras budistas), oferecem flores e acender velas, vestindo branco. Tinha descoberto que no Japão costumavam tirar fotografias nos funerais e isto foi a informação mais chocante de todas. Cá era impossível fazer disso um hábito!

 

Em Portugal parecia que era quando as pessoas morriam que se lhes dava valor. Até mesmo às que nunca tinham tido valor. Há pouco menos de 2 anos a avó materna tinha morrido. Mal tinha uma relação com ela, porque sempre tinha tratado mal a mãe, e esta tinha-se afastado. O avô materno tinha morrido havia muito tempo, era a mãe uma criança, por isso Joana nunca o conhecera. A avó batia muito na mãe, por achar que era assim que devia ser educado, então a mãe, mal tinha feito 18 anos tinha saído de casa. Raramente via a mãe. Agora que ela tinha morrido entrara numa depressão profunda. Andava em psiquiatras e psicólogos, mas Joana não compreendia. Chorava todo o dia. Tinha metido baixa no trabalho. Não cuidava dos irmãos mais novos, papel que Joana se vira obrigada a assumir.

 

Por tudo isto como era possível não se sentir fascinada pelo tema morte? Parecia que cada pessoa lidava à sua maneira, ou que cada cultura tinha uma coisa a dizer sobre a morte e Joana só queria perceber todas as formas de a encarar!

 

 

 

 

Beijinhos